Dá pra ter a internet de antes?

Você já deve saber que, em setembro, a Apple apresentou o iPhone Duo, o primeiro iPhone dobrável da história da marca. Preço no Brasil: a partir de R$ 21.999. Sim, um carro usado.
Agora, um exercício rápido. Quem lembra do Motorola V3? Aquele que fechava com um "clac" e era o sonho de todo mundo em 2004. Pois é. O futuro dos celulares é o celular da sua adolescência. A marca mais desejada do mercado foi buscar, 20 anos depois, uma ideia que já esteve no nosso bolso, do jeitinho Apple, é claro.

Coincidência? A gente acha que não. A tecnologia passou anos jurando que só olhava pro futuro e de repente, está fazendo o mesmo que a internet: revirando a gaveta do passado atrás do que funcionava. A pergunta que interessa não é o que voltou. É por que tanta coisa está voltando agora.
Enquanto isso, no Enjoei…
No mesmo mês em que um iPhone chega a R$ 22 mil, tem gente comprando um iPhone 5C, lançado em 2013, por cerca de R$ 200. Não pra usar como celular, até porque ele já não roda nem metade dos apps da sua vida. Mas pra usar como câmera.
A pessoa tem o modelo mais recente na mão, mas a foto do rolê é tirada no 5C. Um tweet propondo usar iPhones antigos como câmera digital viralizou, e a ideia pegou. Se você também ficou se perguntando o porquê, a resposta é maior do que parece.

Cansamos da perfeição? Senta lá, Cláudia
A Geração Z está cansada do que é perfeito demais. Da pele sem poro, do vídeo com mil cortes, da foto tratada até parecer outra pessoa, com outro CPF e tudo. E isso não fica só na tela, tem até gente tirando o botox, o silicone e o mega hair.
Mas, se fosse só isso, bastava postar uma foto sem filtro e pronto. E ninguém está feliz com uma foto sem filtro. O pessoal quer aquele efeito granulado, aquela luz estourada, aquele flash na cara. Ou seja, quer perfeição de novo, só que de outra década. Quem nunca tirou 20 fotos até achar a "espontânea" certa?

Então talvez o que a gente queira não seja a estética de 2004. É o momento em que ninguém sabia o que era performar na internet.
Antes, a gente só postava
Lembra do Orkut? Do Fotolog? Do MSN com o status "ausente (volto já)" por três dias? Ninguém sabia o que era uma rede social. Você trocava a foto do perfil porque tava a fim, escrevia um depoimento pra amiga com 14 erros de português e torcia pra ficar no topo.

A gente estava descobrindo a internet. Hoje ela virou negócio, e isso tem um lado ótimo, virou jeito de ganhar grana, trouxe uma profissão que nem existia. Tem gente que se sustenta com o que antes era hobby de adolescente, e a gente não trocaria isso por nada. OLD, né?
Só que, no caminho, a gente fez com a internet o mesmo que faz com os eletrônicos: trocou tão rápido que nem percebeu o que ficou pra trás. Hoje ela está cheia de conteúdo, anúncio e campanha, e quase tudo é proposital, até o que parece espontâneo. A gente se acostumou tanto a transformar tudo em campanha que já olha pro momento espontâneo pensando em como encaixar numa marca 🤷
Essa internet não volta, nem com um 5C na mão. Mas talvez a pergunta certa não seja “dá pra ter a internet de antes?”. Talvez seja mais “dá pra ter uma internet mais saudável agora?”
Segue o fio 🧵
A internet mais saudável mora no close friends
A conversa de verdade saiu do feed. Foi pros grupos, pro close friends, pras dailies, DMs e canais de transmissão. É lá que vai a foto torta, o desabafo, o "olha isso" bem sincerão.
O jovem de hoje em dia (sim, já falamos igual uma senhora!), posta 3 posts em 3 anos no perfil aberto, quase um dump anual. Enquanto isso, o daily, só pras amigas, tem a vida inteira dela. O perfil aberto virou vitrine, funciona quase como um cartão de visita, que a gente usava para divulgar o nosso trabalho, lembra? O privado virou o novo Orkut. E faz todo sentido. Quando tudo no feed é público, medido e potencialmente viral, postar ali vira trabalho. O privado é o único lugar onde ainda dá pra não performar.


E as marcas nessa história?
Aí vem a pergunta que interessa pra quem trabalha com isso: se o que as pessoas querem é justamente o que não foi pensado pra performar, como uma marca entra nessa?
Primeiro, 🫵🏻 um aviso 🫵🏻 espontaneidade não se compra em banco de imagem. Não adianta colocar um filtro granulado no anúncio e chamar de "conteúdo autêntico". O público percebe na hora!

O que funciona tem menos a ver com a cara da imagem e mais com o jeito da marca se comportar. É deixar o creator falar do jeito dele, em vez de passar o roteiro por cinco camadas de aprovação. É aceitar que o vídeo mais simples pode render mais que o mais caro. E é entrar nos espaços privados como convidado, não como anúncio. A gente vê isso acontecendo o tempo todo…

🔍 Algumas pistas já estão por aí:
- O TikTok tem grupos de conversa de até 32 pessoas, abertos pra qualquer usuário, não só pra creators.
- A Ilustralle faz testes no estilo Capricho e tem um grupo de WhatsApp com acesso antecipado aos lançamentos.
- Influenciadores estão criando newsletters e grupos próprios, como forma de "falar com vocês sem ser em 30 segundos".
Inclusive, você está lendo uma newsletter agora. A gente entende bem o movimento 🤪
O olhar Lemango
Quando o Duo foi anunciado, a internet não perdoou. A Motorola soltou um vídeo indo do V3 até o dobrável novo dela, a Samsung pediu para avisarem quando a Apple terminasse de "esquentar as sobras" até o Duolingo (que nunca perde uma 😅) lembrou que o verdadeiro DUO é ele, rs. Ah! E o público também decidiu que "Duo" é o número de salários que você precisa pra comprar esse lançamento 😬


A piada funciona porque é verdade, dá pra pegar uma ideia de 2004, colocar titânio e vender como futuro. Só não dá pra fazer isso com o jeito que a gente se sentia na internet. Esse não tem relançamento.
A gente vive essa conversa dos dois lados. Com uma produtora dentro de casa, sabemos fazer o superproduzido: campanha, luz, set, equipe, tudo no lugar. E também sabemos fazer conteúdo pelo celular. Pra gente, a pergunta nunca foi "qual estética é a certa?". É entender quando cada uma faz sentido, pra qual comunidade e em qual canal, e proteger o que é espontâneo pra que ele continue sendo.
No fim, nenhuma marca precisa se dobrar ao meio pra parecer nova. Precisa saber chegar onde a conversa de verdade está.
E aí, tudo isso faz sentido pra você? Compartilha sua opinião com a gente!
